quarta-feira, novembro 09, 2005

O Coisa Ruim











me querem manso

cordeiro

imaculado

sagrado

no festim dos canibais

me querem escravo

ordeiro

serviçal

salário apertado no bolso

cego mudo e boçal

me querem rato

acuado

rabo entre as pernas

medroso

um verme, pegajoso

mas eu sou osso

duro de roer

caroço

faca no pescoço

maremoto, tufão, furacão

mas eu sou cão

lato

mordo

arreganho os dentes

incito a revolta dos deuses

toco fogo na cidade

qual nero

devasso o lero lero

entro em campo

desempato

eu sou o que sangra

um poeta nato

Ademir Assunção

Poema de Ademir Assunção, do livro “Zona Banca”, Editora Altana, 1ª edição –2001, p 87.